Racismo, homofobia e Le Lis Blanc

Existem momentos chave na vida em que você é confrontado com uma decisão iminente e imperativa que você é obrigado a tomar.
É uma pena que uma loja do patamar da Le Lis Blanc permita que no quadro de seus funcionários exista ainda uma mentalidade racista e discriminatória. Apesar das inúmeras tentativas de denunciar o episódio desagradável e vergonhoso pelo qual passei na Le Lis Blanc de São José dos Campos fui ignorada. Não vendo alternativa resolvi escrever esse texto aberto ao público.
Quando me mudei do Rio para São José há dez anos uma das lojas que passei a frequentar foi a Le Lis Blanc e, por recomendação de uma amiga, virei cliente do gerente da loja localizada no Colinas Shopping. “Ele parece um indiano igual a você “ disse minha amiga em referência à minha ascendência hindu. De fato, pude constatar que tínhamos muito em comum éramos também ambos LGBT.Fui convidada para participar de um evento na loja, uma palestra sobre etiqueta social. Ao final da apresentação a palestrante fez questão de tirar muitas fotos comigo. Lembro que ela elogiou muito o lenço que eu usava, um presente que a minha mãe me trouxe de Paris. Quando publiquei algumas fotos do evento no meu Instagram, ele disse que eu desmarcasse a palestrante por um pedido dela. Ao ver minha página teria ficado horrorizada com o conteúdo. Sou escritora erótica e divulgo conteúdo LGBT na rede social. E minha última postagem era uma foto minha beijando minha namorada negra black power.
Relevei o que considerei uma extrema grosseria, tal deselegância vinda de uma “professora” de etiqueta (?!) Não me escapa a ironia da situação com tons racistas e homofóbicos ainda.
A moda é política. Na hora em que eu estava com um lenço caro parisiense era interessante usar a minha imagem, mas ao beijar na boca uma mulher negra aí eu passo a ser interditada: proibida.
Após o episódio, percebi que não era apenas uma ocorrência isolada, um momento de fraqueza e subserviência de um funcionário. Ele tomou para si a causa dela, passou a ignorar a minha presença na loja de forma acintosa, um constrangimento tamanho que, mesmo gostando do design, nada justificava que eu continuasse a comprar lá. Essa foi a decisão que ele tomou. Não importa etnia ou sexualidade, mais do que isso, o que nos define são as nossas atitudes no mundo real. Esses momentos decisivos nos mostram quem realmente somos.
Considero o que aconteceu uma distorção do espírito original da Le Lis Blanc de liberdade, criada para vestir uma mulher cosmopolita e plural e não sinhás do Brasil Colônia.
Um amigo me falou que a loja foi comprada e agora pertence ao grupo Restoque que não dá a mínima para os clientes, tratam como lixo; outra amiga me contou que utilizam trabalho escravo! Procurei e encontrei material na internet, no site da Exame, Folha de São Paulo, Repórter Brasil, G1 entre outras fontes. É, tem que acabar!
Que moda te representa?
#boicote #lelisblancracista #lelisblanchomofobica

Que arte te representa?

Não sou escura o suficiente, gorda o suficiente, velha o suficiente para me enquadrar nas “cotas” praticadas pela indústria cultural.

Esses dias, fui convidada para fazer um teste como atriz. A personagem seria uma mulher chique, bem posta na vida, com filhos crianças ou pré-adolescentes, casada com um homem de alto cargo e reputação ilibada que se vê envolvido num escândalo sexual. Pela minha carreira de escritora denunciando diversas situações de abuso e violência contra mulheres, crianças e marginalizados em geral, interessei-me pelo papel. Na minha caracterização da personagem, busquei inspiração na imagem de grandes damas internacionais como a primeira dama Michelle Obama, a duquesa Meghan Markle, a princesa Diana, na sua melhor amiga, a embaixatriz brasileira, Lucia Flecha de Lima, entre outros ícones e até entendi que seria apropriada minha aparência atual após a gravidez, mais madura e com um peso maior que o anterior. Doce ilusão.

De fato, fui muito elogiada no meu teste e por todos os profissionais que assistiram o vídeo posteriormente. O clima nos bastidores era muito favorável e até conheci, por acaso, um outro ator, apreciador do meu trabalho que me reconheceu de entrevistas polêmicas na televisão à época da divulgação de Fêmea Alfa,  o meu livro de maior mídia. Acho importante cultivar amizade com quem nos valoriza. Bom,  após uma semana a resposta. Infelizmente não rolou. Ok, normal. Eu ja estava me preparando para uma viagem de fim de semana com meu marido e nosso bebê quando um amigo em comum com uma pessoa do projeto a meu pedido sondou o motivo de eu não ter passado eis que  me chega esse relato: “Acabou não sendo ela. Escolhemos uma mais nova, que era importante para o papel. Mas o teste foi muito bom.”

Agora, você leitor pode dizer que sou uma recalcada, estou de mimimi e que não sei aceitar “não” como resposta. É claro que a definição do physique du rôle é prerrogativa deles. Mas me reservo o direito de questionar essa escolha. Vamos dissecar: “Acabou não sendo ela ” dando a entender que eu havia sido escolhida sem nenhuma dúvida. Possivelmente,  houve uma grande hesitação entre diretores, produtores, patrocinadores entre escolher a qualidade da cena e o produto ser vendável. Produto, leia-se a atriz. Por que tem que ser “uma mais nova”? E que história foi essa de “importante para o papel”? Creio que esse adendo foi uma justificativa só para diluir um possível mal-estar. A bem da verdade, não me parece que o papel pedia isso, a mulher teria que ter tido filho aos 8 anos de idade para ter dado tempo de crescerem e ela ainda ser uma ninfeta ou uma jovem… o roteiro praticamente giraria em torno desse fato espantoso! O motivo da juventude necessária para o papel é bem outro…

Machismo estrutural. No fundo, a mulher é sempre objetificada e reduzida à sua figura física. Talvez, hipótese, a intenção fosse retratar o homem como um cara que está comprando uma mulher mais nova (e essa seria uma questão interessante), porém o texto não dava margem à essa interpretação.

Mesmo que fosse imprescindível ser uma garotinha, então porque me chamaram para o teste? No meu instagram talvez aparente ser mais jovem, mas agora que sou mãe fiquei com “cara de matrona”. Vinculo esse texto com uma foto minha atual quando estava grávida para que você,  leitor,  possa tirar suas conclusões e verifique se eu aparento mais ou menos idade, mais ou menos gordura, mais ou menos cor.

Nossas últimas primeiras damas que sao casadas com homens mais velhos têm exatamente a mesma faixa etária que eu. São mulheres entre 30 e 40 anos. Até poderia ser esquisito numa obra ultrarealista escolher atores que estivessem muito fora dessa faixa etária, mas não penso que deveria ser uma restrição apresentar um artista interessante que agrega qualidade ao trabalho mesmo que esse artista não estivesse exatamente nos requisitos. É por isso mesmo que tenho absoluta certeza de que a atriz escolhida para o papel não irá se sentir prestigiada ao descobrir (através desse texto?) que o fator definidor para sua escolha tenha sido parecer mais jovem do que a outra atriz. Ninguém quer se sentir um pedaço de carne num açougue. Todos queremos ser especiais e sermos reconhecidos na nossa capacidade intelectual. Minha intenção com o texto não é desvalorizar o trabalho da outra atriz e sim promover essa reflexão. Esse texto tem uma função educativa.
É claro que toda escolha é muito subjetiva.  Mas realmente,  não dá pra ter uma visão global do ator sem conhecê-lo, sem ver outros trabalhos e ignorando suas outras qualidades. Na publicidade é ainda pior. São aquelas hordas de candidatos sem nenhuma chance. Gado. Prontos para o abate. 
A falta de carinho com os atores é cultivada por muitas produções. A forma leviana como muitos preparadores de elenco se permitem torturar física e psicologicamente também. De repente,  um grupo de pessoas que detém o poder se aproveita da ingenuidade e vaidade dos atores. A fragilidade das pessoas é levada ao limite.
O it não está na aparência enquadrada para o mercado e sim na essência, mentalidade e consciência que um artista carrega dentro de si e isso tudo se revela na aparência diferenciada e não no estar nas medidas ditadas como “corretas.” Mas é apenas a minha opinião. Falo como espectadora que sou. A gente acaba selecionando cada vez mais o que assiste e priorizando obras de maior brilho, mais verossímeis e feitas com inteligência. 

Em sendo um imperativo categórico que a personagem fosse novinha, seria muito natural que ela se vestisse e cultivasse uma aparência mais austera de acordo com a posição social do marido. Acho que me enquadraria. Mesmo esse imperativo eu questiono novamente, pois acho estranho que os papéis “importantes” sejam ocupados sempre por silhuetas dentro do padrão assim como rostos rejuvenescidos por botox. Todo esforço é justificado pelo fato de a “câmera engordar” e lá se vão bochechas na bichectomia,  papadas nas cirurgias plásticas, gordurinhas localizadas com as dietas da moda. Tudo isso em homenagem aos ângulos desfavoráveis que por ventura a câmera possa revelar!

É irresponsável, num mundo onde a anorexia e a vaidade exagerada matam a juventude diante de nossos olhos, que colaboremos com esse padrão estético tão restritivo. Em razão da naturalização desses abusos, me permito escrever esse texto, pois não aguento mais ver as pessoas se submetendo,  se até atrizes de Hollywood se submetem porque comigo seria diferente? Talvez por não ser uma atriz em busca de uma chance e sim uma artista que já conquistou o seu público alvo através da literatura,  uma coisa bastante difícil,  eu tenha me chocado tanto.
Acho uma mancada que não façam uma pesquisa sobre quem é o ator que está sendo chamado para um set. Qualquer pessoa que mandar um Google,  Instagram, Youtube, etc terá condições de ver que eu sou uma ativista incansável, botando a boca no trombone, muitas vezes arriscando a vida pelo meu trabalho, esse é o meu histórico. Eu não tenho medo de nada. Não mereço ser tratada sob o olhar cruel do “ela não é tão bonita assim”, não, eu não sou tão bonita assim. Faltam pessoas de maior fibra e integridade no mundo e é para isso que estou lutando. Pessoas que não se curvem à lógica do machismo e do totalitarismo. Sou uma escritora de alcance internacional,  reconhecida por grandes artistas do Brasil, comprometida com causas humanitárias, feminista feroz, como poderia não refletir sobre cada detalhe que exponho? Então me sinto à vontade para compartilhar com meus fãs, seguidores e leitores essa experiência até para me solidarizar com outras artistas, atrizes e modelos que sofrem humilhações cotidianas. 

Para esse papel, não era imprescindível ser uma velha; não era absolutamente necessário ser uma gorda; não era essencial ser uma negra. Logo, vai ser uma moça jovem, magra e branca. Ou seja, “normal”. Nessa obra audiovisual, reparei que já havia personagens representantes de cada grupo social excluído: um negro, um gay, uma velha, uma gorda. A Wikipédia tem um nome para isso: “Tokenismo é a prática de fazer apenas um esforço superficial ou simbólico para ser inclusivo para membros de minorias, especialmente recrutando um pequeno número de pessoas de grupos sub-representados para dar a aparência de igualdade racial ou sexual dentro de uma força de trabalho. O esforço de incluir um funcionário simbólico em uma força de trabalho geralmente visa criar a impressão de inclusão social e diversidade (racial, religiosa, sexual etc.) a fim de desviar acusações de discriminação.”

Pois é. Logo, quando se adere ao tokenismo tende-se a escolher representantes claramente pertencentes à categoria em questão. Ou seja, o preto mais caracterizável como pertencente à raça negra, a gorda mais identificável como gorda, a velha mais com cara de velha. Uma tentativa canhestra de camuflar o racismo, o sexismo, a gordofobia. Para os outros papéis, evidentemente, os atores “normais”, ou seja, corpos longilíneos, claros e jovens. Um festival de estereótipos.

Essa estética do “normal” ecoa uma estética hitlerista-stalinista. Como nos diz Sontag em Fascinante Fascismo, é próprio de um nazista o gosto pelas “manifestações atléticas da massa, exibições coreografadas de corpos. (…)  A arte fascista exibe uma estética utópica: a da perfeição física.” Não à toa, é ainda tão comum os heróis e heroínas serem jovens, sarados e loiros de olhos claros. Atores desconhecidos que tenham quilos , rugas e melanina demais, têm suas chances reduzidas às cotas.

É no mínimo irônico que uma obra que se pretende progressista e de denúncia contra o sexismo incorra no próprio preconceito denunciado. Isso não é meritório. Sinto vergonha pela classe artística mais consciente que ainda sofre desses males. Por mais que façam um esforço continuam a perpetrar os valores de antigamente onde o papel na ficção e na vida real dado às mulheres era o de mero adorno social. Chega de palavras bonitinhas e discursos engradecedores. Precisamos realmente transformar nossos pensamentos e que isso se reflita nos nossos corpos. A maioria das pessoas não se enquadra nesses padrões aniquiladores e nem deveria.É importante deixar claro que esse não é um texto de alguém que foi recusado num teste. Já fiz milhões de testes e fui recusada pelos motivos mais variados, inclusive num filme publicitário por não ter o nariz grande para fazer um determinado papel em que era fundamental que a personagem tivesse o nariz grande. Esse é um texto para os que pensam numa arte maior e não massificada, onde a busca da qualidade artística real seja o objetivo. A minha decepção surgiu ao constatar que a falta de profundidade se estende até as camadas que julgávamos mais sofisticadas. Devo agradecer por possivelmente ter sido salva de uma situação ainda mais constrangedora. Por ter escrito obras eróticas corria o risco de ser rotulada de “vagabunda”, não é?Não se trata do texto de uma “perdedora”,  mas de uma artista que passou a selecionar mais ainda os espaços que frequenta. É um texto escrito por amor à arte, aos atores, dramaturgos, diretores, equipe técnica, feito com a intenção de apoiar os promotores de obras autênticas, inovadoras, revolucionárias, para que, apesar de tudo, contra tudo e contra todos, os verdadeiros artistas não desistam nunca de seus sonhos.
Para você que teve paciência de ler esse texto até o final, deixo uma pergunta:

Que tipo de arte te representa?

Nalini Narayan

Se você curtiu, fique à vontade para compartilhar!Instagram @nalini_narayan Photo @studioblackroof
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L’heure de pointe

— Tu ressembles à une star de cinéma.
Sur mon image reproduite, je voyais pas seulement une petite samouraï aux longs cheveux noirs et brillants, mais aussi une diva éternelle. J’imaginai la possibilité d’une production mondiale en masse de moi et mes camarades, comme une peinture d’Andy Wahrol. Mais contrairement à un regard critique ou répréhensible, je me vis comme une icône des souhaits d’une génération.


L’heure de pointe
Nalini Narayan’s sexual adventures, an odyssey in São Paulo (french version by Arthur Farias)

A Night in São Paulo

She turned off the shower and stood there facing me as if waiting for me to anoint her again. I looked hard at her pussy, examining it thoroughly, as an astronomer observing the cosmos through a telescope, and I saw it clearly: a comet. It was a provocation. Comet; Come at me; Cum at me.

This is an excerpt of the ongoing translation of my first book, Nalini Narayan’s Sexual Adventures – an Odyssey in São Paulo.